Eles partem e nós partimos juntos




As pessoas não se despedem antes de morrer, rara as situações em que isso é possível. Ao nos depararmos com esse processo poderíamos, ao invés de sofrer a perda repentina, passar 7 dias na semana, depois 6 dias com a pessoa, na sequência 5 e assim seguir de forma decrescente até as visitas serem breves, até chegar a última tarde juntos, o último café, o último abraço. Ter a capacidade de nomear como "último" enquanto acontece e não uma observação no futuro de que aquela vez era a última.
A verdade que tentamos evitar é que todo momento é de certa forma uma despedida, nada será como já foi um dia, nenhum momento se repetirá em nossas vidas. Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontram as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Aí está a preciosidade da vida e só consegue desfruta-la quem percebe a sua singularidade e a brevidade do tempo. Passado isso conseguimos compreender a constante saudade de tudo o que já foi, de coisas que acabamos de viver.
Apesar da consciência não estamos preparados para a perda. Tentamos evita-la até o último suspiro. E quando finalmente chega o momento é como se a coluna central de uma casa fosse ao chão sem aviso prévio, sem permitir que, anteriormente, as demais colunas se fortalecessem. O telhado cede, tudo desmorona ao redor. É necessário reconstruir a partir dos escombros. É natural se sentir desprotegido. Algumas colunas resistem erguidas, apesar das trincas, do desejo de também ir ao chão, de não suportar todo peso. Essas serão usadas como referência no processo de reconstrução.
Você não imagina quantas vezes quis tombar. Resisti. Não me arrependo por isso.

João Peixoto







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