Faz tanto tempo que não te escrevo que já nem sei se estas palavras te encontrarão do lado de lá do tempo ou apenas ecoarão nos corredores da saudade.  Espero que tenha visto tudo o que fiz e tenha ficado feliz. Vivi o que sempre sonhei. Você me viu desde pequeno e sabia que o quintal de casa era pequeno demais para meu coração. Viu meus cuidados com seu curativo e introduziu em mim a semente de que havia um caminho, que era possível sonhar e lutar pelo que acreditamos. Fiz curativo em mais gente vó, aliviei febres, acalmei delírios. Em redes, canoas e casas humildes. Desci um rio gigantesco por dias... meses, dormi sob o olhar da mata me vigiando, escutei todo tipo de bicho cantar na madrugada e me agarrei ao meu revolver. Pena que ele não boiava. E por muito tempo tive medo de morrer afogado. Deus me puxou do fundo e me devolveu o folego cada vez que vacilei.

Vi cidades e povoados com nomes que não cabem nos mapas. Conheci a maldade vestida de homem, mas também a bondade escondida no gesto anônimo, na mulher que dividiu o peixe e a farinha, no velho que ofereceu silêncio, na criança com sorriso inocente que me estendeu seu açaí na cuia. Em cada escola, igreja ou vilarejo que pude realizar atendimento deixei parte de mim. E o povo me cedeu parte dele. Confissões, medos e doenças que com minha canastra foram transformados em cura e alívio. Só não consigo determinar quem curou quem em cada encontro.

Naveguei por rios tão longos que em certos trechos duvidei se eram ainda o mundo ou se eu já tinha cruzado para o outro lado — a terceira margem, talvez, onde o tempo não é mais o tempo e tudo é apenas lembrança flutuando. São momentos guardados na memória que riqueza alguma poderá comprar e pobreza alguma poderá me tirar.

Do quintal do passado trago ainda o gosto do fruto da árvore, o cheiro da terra que capinamos juntos, o anzol improvisado com que fisgávamos peixes. Ali aprendi a reverenciar a vida e a agradecer por cada fôlego emprestado do mundo. Espero expirar bom louvor a vida. Espero devolver toda beleza que já pude experimentar. Espero não ter sido em vão. Dizem que ninguém entra duas vezes no mesmo rio mas eu ainda olho para trás e reconheço cada água passada como se fossem minhas. E às vezes, quando o vento sopra daquele lado do tempo, eu me pergunto:  se eu gritar nessa direção, alguém consegue me ouvir? 

Que o vento leve minha oração...

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